Violência doméstica tem marido como agressor em 74% dos casos

Desde 2006, quando foi criada a Lei Maria da Penha, o número de mulheres assassinadas no estado diminuiu em 28%, de acordo a Secretaria da Mulher de Pernambuco. Até 29 de agosto de 2015, a central do Disque-Denúncia Agreste recebeu 231 informações sobre crimes de violência contra a mulher. Em 74% dos casos, o agressor é apontado como sendo o marido. O tema foi destaque no ABTV 1ª Edição desta quarta-feira (30), na terceira reportagem da série "As Sombras do Crime".
Uma mulher, que viveu um relacionamento de mais de duas décadas relata que teve dificuldade para se livrar desse tipo de problema. A vítima não quis se identificar, para preservar a privacidade dela e a dos filhos. Para sair da situação, a mulher foi em busca de apoio, conseguiu se separar do companheiro e decidiu retomar os projetos ao lado dos filhos.
“Durante o noivado, o namoro era bem tranquilo. Nós resolvemos colocar nosso próprio negócio, começamos a trabalhar juntos. Foi quando começaram as humilhações, todos os dias, me humilhava de todas as formas na frente dos meus filhos, na frente dos funcionários. Ele saia, me deixava só, me desprezava. Só que depois ele vinha, pedia perdão, dizia que ia mudar, chorava. E, quando você está apaixonado - que toda relação vem a paixão, no começo -, aí eu acreditava naquele amor", detalhou a vítima.
Saúde psíquica é uma das mais afetadas pela violência doméstica (Foto: Reprodução/ TV Asa Branca)Saúde psíquica da vítima é uma das mais afetadas 
(Foto: Reprodução/ TV Asa Branca)
Saúde psíquica
A consequência mais grave e prejudicial, segundo a psicóloga Ana Maria Branquinho, é para a saúde psíquica da mulher. “Existe a fase, primeiramente, da tensão, em que essa relação já vai para um conflito maior e esse homem começa a insultá-la, a humilhá-la e essa mulher vai se permitindo. Daqui a pouco, esse homem vai dizer: assim não está resolvendo; vou partir para a agressão física. A [fase] psicológica perpassa por todas as etapas e é mais prejudicial para a saúde psíquica da mulher. Então, esse homem vai realmente agredí-la. Depois que agride, ele recorre a pedir perdão. Essa mulher, de certa forma, se coloca [impõe], mas ele tenta até conseguir e, ao voltar, promete muitas coisas e começa-se a segunda lua de mel, que é a de reconciliação. No início, passa-se um mês, dois meses, e ele tenta policiar essa impulsividade, que, na verdade, não cessa. Então, com o decorrer do tempo, esse homem volta a agredí-la”, explica a profissional.
As agressões praticadas dentro de casa também afetam os filhos. Presenciar esse tipo de situação pode gerar problemas para o desenvolvimento afetivo das crianças. A escritora Carmen Nusinov, por exemplo, viveu em uma casa no município de Altinho - região Agreste - onde as agressões eram frequentes. A violência que atormentava a mulher e os irmãos culminou na morte da mãe. Para tentar se livrar do ambiente, a filha saiu de casa durante a adolescência e foi morar nos Estados Unidos.
Escritora viaja o mundo inteiro fazendo palestras sobre violência contra mulher (Foto: Reprodução/ TV Asa Branca)Escritora viaja o mundo fazendo palestras sobre
o assunto (Foto: Reprodução/ TV Asa Branca)
A escritora detalhou a história de vida em um livro e, atualmente, viaja o mundo inteiro fazendo palestras sobre o assunto. Dos EUA, onde mora atualmente, ela falou sobre o tema. "Ele batia nela na frente da gente, falava coisas muito feias com ela na frente da gente; ele simplesmente não se importava. Todas as vezes que ele batia nela, ele a expulsava de dentro de casa e ela tinha que dormir no frio, na chuva, não importava, ela só podia voltar para casa às 5h, que era a hora que ele saía para trabalhar. Eu esperava ele dormir; colocava a minha cabeça na parede e, quando escutava o ronco dele, eu pulava a janela e levava o meu cobertor para socorrer a minha mãe. Ela tremia de medo que ele descobrisse que eu estava ali fora ajudando. No dia em que minha mãe morreu, porque a gente morava num sítio - a gente não tinha água potável, eletricidade, transporte -, a gente não tinha como socorrer a minha mãe e ela acabou morrendo por falta de socorro”, relatou.
Como denunciar
A violência que acontece dentro de casa fica às escondidas, o que dificulta uma intervenção policial. Nesses casos, para mudar a realidade é fundamental que haja denúncia - que pode partir de qualquer pessoa. O denunciante fica sob sigilo e as informações são repassadas para as autoridades. Em alguns municípios existe a Delegacia da Mulher, que tem um serviço especializado para combater esse tipo de crime.
A denúncia pode evitar que a situação se transforme em um crime ainda pior, como destaca a delegada da Mulher Débora Bandeira - que atua no Agreste Meridional. "A denúncia é importante para que a mulher se fortaleça, para que a mulher tenha vontade de sair desse ciclo de violência, para que o agressor venha a ser punido, responder pela Lei Maria da Penha. Então, a denúncia é, de fato, importantíssima”.

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